sexta-feira, 31 de maio de 2024

São cravos, 50 anos de Abril, 100 poemas

Fotografia da capa: Alfredo Cunha | Poema: Luís Aguiar


TIMBRAM-SE OS VIDROS DE ABRIL

 

Para o meu pai, José Mário de Aguiar Soares Pereira,
Militar de Abril de 1974
 
 

 

Talvez seja importante, em determinado momento da vida,
compreender o vulnerável voo do tempo.
Nada sei sobre a dor que se oferece numa toalha branca,
ou, até, onde desagua a breve espuma de um mar que foi progredindo
até ao esquecimento. Nada está para além do fascínio.
Nem o canto da saliva que se abre a Abril.
Nem a máquina fotográfica de Alfredo Cunha que, num relance,
imortalizou a sombra da Chaimite no Arco da Rua Augusta.
Trago em mim o deslumbramento,
o antiquíssimo cravo-sépia, a dor dos que me morreram,
a descrição desse tempo, perpetuada no timbre da voz do meu pai,
e a melancolia dos que deixaram de compreender
a subtileza da linha do horizonte.
Esta é a memória de um povo, enquanto algumas crianças,
nesse tempo, brincavam nos pátios da liberdade.
E todos tinham um abismo, um coração frágil nas mãos,
a escuridão subentendida em todas as palavras,
a censura a crescer nos bolsos vazios,
como se fosse uma cicatriz perpetuada em todos os rios.
Recordo-me do cartaz com um menino de cravo na mão
a silenciar uma G3 – ímpeto de um pássaro livre –,
já que a liberdade a todos pertence, e se alastra, certamente,
às amargas recordações, mas que são imunes ao olvido,
visto que o peso da memória também pode, um dia, habitar um livro.


Cunha, Alfredo et al (2024), São cravos, 50 anos de abril, 100 poemas (1.ª edição, 112 pp). Editora Labirinto