segunda-feira, 15 de abril de 2024

Alfarrabista

Fotografia da capa: Luís Aguiar




ALFARRABISTA
[3 poemas]



O MANUSCRITO DE PROUST

Servimo-nos do futuro, 
os papéis amontoaram-se no despontar do dia. 
Há uma linha de argila, incansável e que delimita esta dor, 
é o âmago da nova arte ou a campânula de um passageiro. 

Ocorre-me, às vezes, que a água que agora nasceu 
tem um nome pequeno, tem um aroma acidulado. 

Esta é a primeira morada, os músculos estão preparados 
para a sombra iminente, 
mas há uma diferença nesta agonia, 
a casa em Auteuil é uma pedra corpuscular, crepuscular, 
tão próxima do horizonte, tão púrpura no regaço.

...

ARVO PÄRT: 
CANTUS IN MEMORIAM BENJAMIN BRITTEN (1977)

A inexistência contemplou o som inextinguível, 
alguém fechou os olhos perante a pálida memória.
Toldou-se-me a voz, num relance os violinos choraram, 
ecoaram um diluído timbre cinza-suave. 
Penduradas, as palavras baloiçavam na tenacidade. 
Há, agora, um relincho no horizonte – 
frágil perfume sobrevivente na luz irrecuperável. 

Um cansaço luarento perscruta Benjamin Britten, 
as manhãs despertaram na vida efémera. 
Na porta calcária, o coração extinguiu-se em todas as feridas 
recém-disciplinadas. 

Nos degraus da noite, os gatos uivavam agonizantes sílabas, 
mas as cordas dos violinos envelheceram, com límpida voz, 
na transparência dos vulgares destroços.

...

AS LÍVIDAS RUAS DE VIVIAN MAIER

Olho-me e todas as palavras mentem, não mexo sequer os lábios, 
a Rolleiflex, comprada em 1952, pesa-me o olhar. 
As ruas estão desertas, e ao mesmo tempo tão cheias de pessoas. 
New York chegou com as suas âncoras, e com os seus desígnios, 
mas foi nos subúrbios de Chicago, ao longo da costa do Lago 
Michigan, 
que encontrei nos passos das crianças o sabor dos campos. 
Também o exílio me chega através da língua, 
enquanto os milhares de rolos de filme da Kodak Tri-X 
 me ocupam a memória e o olvido. 

As pessoas movem-se pelas ruas e absorvem o meu flash. 

Fixo o olhar na luz, só na luz – os vidros reflectem a eternidade, 
nada sobrevive para lá da raiz do vento, 
ou da minha permanência na rua. 
Já não tenho medo, nem de aturar as birras das crianças, 
do seu choro, do seu ranho, das fraldas conspurcadas 
e que vão permitindo financiar o meu projecto 
de um dia conseguir reparar a sombra. 

Mil destinos tem a vida, mas eu não pertenço a esta terra, 
sou da vila alpina de Saint-Bonnet-en-Champsaur, 
e dessa respiração que se insurge, ofegante, através da pele, 
ou do sorriso ácido dos Gensburgs e dos Raymonds. 
Mexo-me junto às estátuas, quem fui só poderá ser comparado 
a um veado à solta na cidade, ou a uma égua sem filhos. 
O tempo é uma avalanche e o sol, por vezes, escurece o futuro. 

Ninguém sabe ler uma fotografia, nem mesmo eu, 
embora me esforce com as pilhas de jornais do New York Times 
que acumulo no quarto, no sótão, no alpendre, no jardim. 

Perscrutei, como pude, a pronúncia da viagem – 
Los Angeles, Filipinas, Tailândia, Hong Kong, Vietnam, Malásia, 
Singapura, Índia, 
Iêmen, Egipto, Grécia, Líbano, Síria, Turquia, Itália, França e Suíça. 

Não tenho certezas, nem imperialismos, mas sei que é branca 
a solidão, antes de a focar no rosto de uma pessoa.

Aguiar, Luís (2023), Alfarrabista (1.ª edição, 68 pp). Editora Labirinto